Sonho de uma tarde de inverno

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Sempre fui muito impulsiva. Isso me custou muito, mas talvez tenha me proporcionado a melhor parte de toda uma vida.

Tudo começou em uma tarde de inverno, quando vi um homem que aparentava ter cerca de vinte e cinco anos sendo linchado por um grupo de moradores atenienses. Pude perceber que o jovem trajava típicas roupas espartanas. Entendi então o motivo de tal violência: Esparta e Atenas estavam em guerra e aqueles moradores achavam que se tratava de um espião. Espartano ou não, se tratava de uma vida, não podia deixar que aquilo continuasse.

– Saiam de perto do meu irmão! – gritei com toda a força que pude, forçando algumas lágrimas para trazer mais vivacidade a minha atuação repentina – Meu pobre irmão voltava de Esparta para se juntar a nós na guerra e vocês o recebem desta maneira? Por acaso têm alguma prova de que ele é um espião? – o silêncio constrangedor entre eles me foi bastante satisfatório – Pois peçam-lhe desculpas e voltem para suas casas!

Depois da confusão, levei o rapaz até minha casa para cuidar-lhe e saber mais sobre sua história. Disse-me que se chamava Netuno e viera a Atenas em busca de estudo mais avançado. Jurou que não me faria mal algum e pediu ajuda e abrigo, estava completamente perdido na nova cidade. Permiti, contanto que também trabalhasse para suprir a casa.

Com o passar dos meses, tornamo-nos de amigos a namorados, e depois noivos. Foi então que me contou toda a verdade: era de fato um espião. Entretanto, sua honra não o permitia que fizesse qualquer coisa que me prejudicasse. Agora apaixonado, estava disposto a lutar contra qualquer espartano que ousasse nos afastar. Eu podia ver sinceridade em seus olhos, mas era doloroso demais saber que tudo era mentira. Fugi para a floresta, ignorando suas súplicas.

– O que faz aqui, humana? Será que já não basta destruírem nosso lar para dar continuidade a essa guerra inútil? Vocês não são os únicos moradores dessa terra! – gritou com voz potente a pequena fada. Dirigi a ela um olhar profundo e a mesma, comovida, perguntou-me: – Por que está chorando?

Contei toda a minha história, e que não sabia que destruíam a floresta por causa dessa disputa sem fim. Solidária, Titânia, rainha das fadas, se mostrou disposta a uma amizade inusitada, disse que conhecia a verdade por trás das palavras humanas, e eu era uma das poucas que a carregava em tudo o que dizia. Foi somente por isso que não me abandonou quando viu chegar Netuno d’entre as folhas, surpreso ao contemplar o ser mágico.  Pelo contrário, se aliou ao meu noivo em suas incessantes desculpas.

– Só o perdoo por causa de Titânia. – disse um tanto relutante, até que ele me abraçasse e prometesse não mais mentir.

Resolvidos os problemas entre nós dois, fizemo-lo ciente da atrocidade ainda maior que as cidades estavam provocando, pois, além de soldados, muitos animais e criaturas encantadas estavam sendo mortos.

– Conheci um duende certa vez, se chamava Oberon. Há a possibilidade de acabar com a guerra se juntarmos todos esses que estão em perigo nas florestas para lutar? – perguntou Netuno, esperançoso.

– Não trabalho com duendes. – Titânia logo o cortou – Não tem a mínima seriedade.

Houve um longo período de negociação entre nós e Oberon, que havia sido encontrado por meu noivo dois dias depois da conversa com a rainha fada, resultando em uma trégua “em nome do bem maior”, argumentei. Casei-me o mais depressa possível, em segredo, já que parte da cidade achava que Netuno era meu irmão. Depois de incontáveis reuniões bolando estratégias e buscando atrasar a produção de armas e carros de guerra, tínhamos um plano concreto, esperando para ser posto em prática. O que queríamos? Executar um feitiço que iludiria ambas as cidades, fazendo-as pensar que haviam vencido, esquecendo-se dos combates e voltando a suas velhas rotinas.

O grande problema era que demandava energia demais, por isso nem as fadas nem os duendes haviam tentado tal coisa, era possível somente por estarmos aliados. Nosso plano se concretizaria logo, se não fosse um detalhe: eu estava grávida. Netuno não permitiria que eu me esgotasse tanto e pudesse trazer problemas ao bebê. Estava muito enganado ao achar que eu aceitaria isso tão facilmente… O tempo correu muito depressa, completado meu oitavo mês de gravidez, tudo estava pronto para acabar de vez com a guerra.

Certo dia, ao adentrar a floresta, deparei-me com uma cena tão inusitada quanto bela: Titânia e Oberon, antes inimigos, se encaravam, o duende acariciava seu rosto enquanto ela sorria. Há algum tempo eu percebia que a rivalidade se tornava, aos pouquinhos, amor, mas não conseguia deixar de me espantar ao vê-los em tamanha demonstração de carinho. Titânia era destemida, defendia seus amigos com a própria vida, ajudava, era uma verdadeira rainha. Oberon, também rei, governava com cautela, aconselhava a todos, tinha uma personalidade mais tranquila, sempre buscando alegrar e encorajar as pessoas a sua volta.  Tão diferentes e tão compatíveis.

Uma última reunião antecedia a realização do feitiço, foi só então que descobrimos que era necessário entrar no combate para todos das tropas serem encantados. Supliquei a Netuno que não fosse, era arriscado demais, não podia perder meu marido tão amado, mas ele não desistiria, era orgulhoso demais para isso. O que me restava era aproveitar o tempo que tínhamos.

Chegado o dia do confronto, próximos ao campo de batalha, escondidos, esperamos. Os soldados posicionados nas fileiras avançavam, era a hora de agir. Netuno me abraçou forte enquanto eu chorava, e deu-me um beijo longo, tão cheio de amor que por um instante achei que nunca nos separaríamos. Ele foi até o centro do local e depositou uma planta com uma pequena fagulha de fogo, que cresceu até uma fumaça esverdeada, contendo os poderes de todas as fadas e duendes, ervas e tudo mais que conheciam, tomar o ar. A fumaça aturdiu os soldados e os fez largar as armas e pôr a cabeça entre as mãos, fechando os olhos e tossindo com força por alguns minutos. Depois do torpor, ainda um tanto confusos, deram meia volta e rumaram a suas cidades, acreditando que haviam vencido. A guerra estava terminada. A floresta e seus moradores estavam salvos. Estes, exaustos após tantos esforços, suspiraram aliviados.

Meu marido caminhava até nosso esconderijo, meu sorriso se desfez quando o vi desmoronar a dois metros de mim. ”Como eu não percebi a flecha em suas costas?”, me perguntava enquanto as lágrimas desciam pelo meu rosto. Comecei a sentir cólicas fortíssimas, ouvia Titânia gritar desesperada que me ajudassem, pois eu estava entrando em trabalho de parto. Duendes e fadas amparavam-nos com uma velocidade absurda, eu e meu marido fomos postos deitados um ao lado do outro, ele segurava minha mão e dizia que tudo daria certo, implorei que não falasse mais, estava perdendo muito sangue, não podia se esforçar. A dor me tomara, gritei até minha garganta doer, e finalmente pude ver o pequeno prematuro, era lindo. Todos choramos emocionados.

Netuno e eu seguramos nosso filho nos braços, era a primeira e última vez que o veríamos. Chamei Titânia e Oberon.

– Minha querida amiga, por favor, me prometa que cuidará dele.

– Vou cuidar como se fosse meu, ele vai crescer sabendo o quão honrados foram seus pais, dando a vida por nós… – ela disse com a voz embargada enquanto soluçava.

– Vocês foram um presente dos deuses, mas esse presente não poderá ficar conosco, que Hades os receba com a glória que merecem. – o rei duende também chorava.

– Não me entristeço por morrer por uma causa tão nobre. – Netuno se virou para mim – Eu amo você, Minerva, mais do que tudo.

– Eu também o amo mais do que tudo.

Com muito esforço, pus minha cabeça em seu peito, abraçando-o. Beijei-o e fechei meus olhos, minha mente se perdia no vazio enquanto minha vida e a dele iam se esvaindo.

– Nos vemos nos Campos Elísios.

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Uma vida tecida em boas memórias

Resultado de imagem para maquina de costura saindo pano ilustrativo     Depois de perceber que em seu mundo não conseguiria ser feliz, a moça tecelã pensou em um modo de encontrar alguém que a amasse de verdade e que ela não precisasse tecer. Chegou à conclusão de que a melhor forma era sair daquela rotina.

Ficou imaginando uma maneira de realizar tal coisa. Sua melhor ideia foi fazer um portal que a levaria para outro lugar. Demorou um bom tempo para ela tecer esse portal, pois era de extrema complexidade, além de exigir muitas linhas.

Com ele pronto, preparou suas coisas e seguiu rumo a uma vida onde poderia ser livre. Quando o atravessou, se deparou com uma vila modesta, onde ficou encantada com os habitantes que passavam diante dela.

Começou a andar na vila para explorá-la e conhecê-la. Porém, logo a moça tecelã se perdeu. Ela andava  sem rumo quando esbarrou acidentalmente em um rapaz, ambos pediram desculpas. Naquele momento, a moça tecelã sentiu algo que nunca havia sentido antes: o amor.

Seu nome era Tissu, um jovem de corpo esbelto, cabelos lisos, olhos castanhos e sedutores. Ele lhe perguntou qual era seu nome, ela falou que não sabia quem era ela mesma. Tissu sentiu pena e, ao mesmo tempo, uma atração pela moça, pois ela era muito bonita e atraente; falou que iria ajudar a tecelã a lembrar quem ela era.

Não demorou muito tempo para que ficassem íntimos; Tissu deu a ela uma personalidade, uma vida e também um nome; agora se chamava Cassandra, um nome nobre e justo para uma moça atraente.

Logo Tissu e Cassandra começaram a namorar. Passou um tempo… Agora ambos estavam morando juntos, Cassandra estava apaixonada, o amor deles era como se fosse uma linha a tecer e assim foi até o final de suas adoráveis vidas.