Dois Milionários e uma Desconhecida

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Os mais velhos dizem que temos apenas duas chances de sermos ricos nesta vida: a primeira, é na hora de nascer; a segunda, na hora de casar. Desperdiçadas essas chances, pronto, vai ser pobre pelo resto da vida.

Emílio nasceu e cresceu na cidade de Barbacena, morava em um bairro humilde, em um barraco feito de tijolos podres e cimento velho. Sua mãe, empregada doméstica, não ganhava o suficiente para pagar as contas; seu pai, segurança do prédio pertencente à família mais rica da cidade, ganhava mais que sua esposa e, mesmo assim, não era o bastante para sustentar sua mulher e três filhos.

Emílio, o filho mais velho, trabalhava desde pequeno, fazendo bicos aqui e acolá. Sempre quis mais, sonhava em morar em uma mansão, ter helicópteros, computadores, vários empregados a sua disposição e muito mais. Sua mãe, de cara, já percebera a ganância e fome de dinheiro de seu filho. Ouvia-se muito ela dizer:

– Emílio já encontrou o amor, o nome de sua parceira é Dinheiro, por ela esse menino faria qualquer coisa, amor verdadeiro esse.

Com vinte e cinco anos de idade, o filho do segurança do prédio da família mais rica de Barbacena encontrou-se com a filha mais nova dessa família: um encontro ao acaso,  indo visitar o pai, Emílio esbarrou nela sem querer. Foi amor à primeira vista, ela apaixonou-se por ele e ele pelo dinheiro dela.

Não tardou para começarem a se encontrar todo dia no mesmo prédio, demorou menos ainda para começarem a namorar e logo ele fez o pedido tão esperado. Ajoelhado em um restaurante, perguntou:

– Dinheiro, digo, Gisele, quer casar comigo? – Ela, toda apaixonada, aceitou, e ele, muito contente por não ter desperdiçado a segunda chance, começou a preparar o festejo.

Não conseguiram ter filhos, mas ninguém ficou abatido, para Gisele apenas Emílio importava, e para Emílio, bem, não é preciso repetir.

Contudo, o tempo passou e Emílio percebeu que não só de mansões e carros de luxo o homem vive, estava faltando alguma coisa. Mais empregados? Uma casa maior? Computadores mais modernos? Ele não sabia dizer.

Um belo dia, andando no shopping, Emílio se deparou com o que faltava na sua vida. Ela era linda, com feições delicadas e simples, um rosto que seria fácil de esquecer se não fosse tão hipnotizante e marcante, era aquele tipo de rosto que se você olha uma vez não chama atenção, mas quanto mais você olha, mais bonito vai ficando, sempre.

O homem rico aproximou- se enquanto ela lia um livro, “O Corcunda de Notre Dame”, e começou a conversar, perguntou seu nome. “Carolina” foi a resposta, dita de forma tão suave e doce que até os anjos pararam para ouvir.

Desconfiada no início, a moça não deu muita atenção ao homem, porém, aos poucos, foi se encantando por aquele rico, aparentemente muito superficial, mas com a mente tão profunda e surpreendente quanto o universo.

Passaram sempre a se encontrar no mesmo shopping, apaixonaram-se aos poucos, aquele tipo de amor que se constrói peça por peça, como um quebra-cabeça, no início impossível de construir, confuso demais, mas, com o tempo, nota-se uma imagem linda e simples de ser compreendida.

No começo Emílio enganou Carolina, mas, depois de um tempo, depois que estavam completamente apaixonados, ele contou sobre sua esposa. Espantosamente, Carolina não se importou, ela o amava e sabia que Emílio, ganancioso como só ele, não largaria o dinheiro. Aceitou, portanto, ser a amante, a tão famosa “outra”.

E Gisele, não desconfiava de nada? Muito pelo contrário, ela sabia de tudo, desde os encontros no shopping até os eventuais encontros carnais em lugares mais reservados. Mas ela amava muito Emílio para abandoná-lo e sustentou isso por um tempo, até seu orgulho gritar em sua cabeça dizendo que ela não merecia tal humilhação.

Foi em uma tarde nublada, o vento uivava como uma amante em seu ocasional encontro com o outro, uivava quase tão alto quanto o som do revólver. Dois tiros seguidos, secos, limpos, sem gritos ou correria. Depois, um último disparo, executado da mesma forma. Horas depois encontraram os corpos, um casal de milionários, membros da família mais rica de Barbacena, e uma mulher, até então desconhecida. Disseram que a desconhecida e o milionário eram amantes, e a milionária matou os dois e depois se matou. A polícia deu ao caso o nome de “Os Amantes”.

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Eterna Noite de Verão

Era chegado o dia do seu casamento e Demétrio, sabendo que Helena gostava especialmente da cor azul, procurava entre a vegetação selvagem por ramalhetes que pudessem formar um belo arranjo para sua noiva. Helena preenchia sua mente; em tudo via traços seus. Sua presença era tão entrelaçada a sua alma que não se recordava de um tempo em que não a amasse.

Encontrando um arbusto repleto de pequeninas flores azuladas, aproximou-se para sentir seu perfume e, de súbito, simplesmente não soube por que estava ali. Eis que, de entre os galhos, surgiu uma fada que, ofegante, tocou-lhe os dedos.

– Que alívio, enfim encontrei-te. Fadas te procuram por todo o bosque, Demétrio! Que fazes aqui?

– Não sei. Agora percebo, não me recordo de nada desde ontem, quando procurava por Hérmia.

– Espera… Não me digas que inalastes do perfume desta flor… – a criatura arregalou os olhos ao vê-lo assentir. – Estavas sob o efeito de magia, Demétrio! Foste ludibriado por um duende que te fez crer que amavas Helena e com ela se casaria. Passaram-se já quatro dias desde aquela noite e, neste momento, deverias estar com Lisandro à espera da cerimônia.

– Há Lisandro de se casar?

– Sim, casar-se-á com Hérmia, filha de Egeu.

– Como? Ela estava prometida a mim! – gritou, os olhos transbordando de fúria.

– Egeu pensou que tu amasses Helena, por isso permitiu que eles se unissem em matrimônio. Por favor, meu caro, não faças estupidez alguma! Prometes não interromper o casamento e prometo encontrar-te um novo amor.

Demétrio ponderou sobre a proposta. Não queria perder Hérmia, amou-a tanto… Contudo, tinha às vezes a impressão de que esse sentimento crescia nele como erva-daninha no pavimento, persistente, destruindo seu entorno. Além de tudo, seria capaz de viver um amor não correspondido?

– Juro, então, não interferir na felicidade deles desde que cumpras tua palavra.

**Ponto de Vista de Hérmia**

Faltavam algumas horas para a cerimônia. Helena e eu nos preparávamos quando Titânia, a fada que nos ajudara a planejar a festa, adentrou o cômodo. Parando à minha frente, estendeu-me uma coroa de flores silvestres e disse:

– Abençoada seja esta coroa e a mulher que a usar, que possa sabiamente sua família guiar.

Diante de belas palavras, assenti e pus o arranjo ao meu lado, reservando-o exclusivamente para o casório. À Helena, ela entregou um pequeno frasco contendo um líquido cor púrpura e, ternamente, falou:

– Se um dia o mundo quebrar seu coração, teu maior desejo será salvo por esta poção. Antes de tudo, vá e converse com teu noivo, que lá fora te espera.

Helena sorriu em agradecimento silencioso e saiu. Meu casamento seria dali a pouco, antes do dela, por isso adiantei-me ao local designado.

Lisandro me esperava sorridente, assim como eu, através de tantas desventuras, o esperei. E ele jamais me deixou. Quando tomou minha mão, por todo tempo só teve olhos pra mim. E nosso tempo agora duraria para sempre.

Helena não foi tão feliz ao ouvir Demétrio declarar seu desamor e a impossibilidade de casar-se. Tomou a poção e, aparentemente, fora seu desejo mergulhar em sono eterno e profundo. Quem sabe, acordar, num lugar onde é sempre verão.

Nas Águas do Seu Mar

Joshua POV.

   Eu não ligava para os outros marinheiros que conversavam alto, não ligava para o quão escuro e nublado o dia estava e tinha até esquecido o quanto odiava o fato de ter sido praticamente atirado nesse navio por meu pai. Tudo só por causa dela, Stela, que agora estava apoiada na beirada do navio, os cabelos esvoaçantes pelo vento forte e o olhar perdido em algum lugar na imensidão do mar.

Ela conseguia roubar toda a minha atenção, assim como o oceano roubava a sua. Estava sempre presente em alguma parte de minha mente desde que a conhecera no pier local, marcando presença ali todo domingo e, eventualmente, passeando nos navios que sempre apareciam aos montes. Foi difícil e levou bastante tempo para fazê-la retirar os olhos do mar e focá-los em mim, já que parecia ficar presa em uma espécie de transe toda vez que ouvia o barulho das ondas.

Agora ela servia como uma âncora para mim, me impedindo de me perder no mar com todas as lembranças de seu rosto e sorriso. Mas ao mesmo tempo que me ajudava a continuar são, sua imagem também me desnorteava, me cegando a todos os perigos que o mar indomável oferecia aos marinheiros e, com isso, me deixando vulnerável.

Felizmente (ou infelizmente) nos aproximávamos cada vez mais, o que aumentou mais minha paixão pela mulher que mais parecia uma tempestade em alto-mar. Mas tinha plena noção que ela, como qualquer mulher de espírito livre como as ondas, poderia ir embora a qualquer momento, ainda mais se se sentisse pressionada ou presa. Por isso tentava deixá-la confortável ao meu lado a todo custo, para que pudesse continuar a contar minhas histórias e, talvez, vivermos uma nossa.

 

Narrador POV.

   Aos poucos, os dois jovens foram se aproximando, encontrando inúmeros gostos em comum. Joshua fazia questão de compartilhar suas aventuras em alto-mar com a garota (de quem, após conhecer o passado, tornou-se grande amigo). Não conseguia negar que estava ligeiramente apaixonado pela moça, até a buscava nas manhãs gélidas de sexta-feira em sua casa, que beirava a imensidão de águas agitadas, fazendo-a se sentir próxima de seu falecido pai. Contudo, já estava ciente de que a mais nova não estava interessada em nenhum tipo de relacionamento sério, queria continuar solteira, livre como as gaivotas que voavam em pleno pôr do sol.

À espreita, um marinheiro de fios claros, rebeldes, denominado Rogério, observava tudo. Seu ódio por Joshua aumentava a cada troca de olhares entre os dois amigos e, após descobrir que também nutria sentimentos de mesmo gênero pela mulher, com certo receio de perdê-la, achou melhor se confessar. Inicialmente ficou confusa e perguntou se era um tipo de brincadeira, mas depois de notar que cada parcela da afeição era real, com um sorriso doce em seus lábios aveludados, disse que também gostava muito dele, todavia, não achava estar pronta para dar esse grande passo em sua vida.

Para a surpresa e alegria dos dois (e desgraça para Rogério), se tornaram cada vez mais próximos, mas esses bons momentos voaram para longe junto com a brisa do mar. Stela começou a discutir frequentemente com seu amigo e o mesmo não entendia o porquê de tanta confusão. Sentiu seu mundo cair em uma noite de domingo, avistando sua amada observando o luar nos braços de outro homem e, infelizmente, conhecia muito bem aquelas madeixas amareladas que se mesclavam com o cabelo negro da moça.

 

  Rogério POV.

   Eu não sei muito bem o que deu em mim. Realmente. Me sinto horrível desde que Stela entrou no nosso navio. Mas essa sensação de estar com ela é tão boa, mesmo que por meios errados.

Ver Joshua e Stela quase juntos fez o sangue subir à minha cabeça. Eu realmente parei de me importar com o que a religião ou as pessoas bondosas e sensatas diziam, só seguia meu coração angustiado, e traí a confiança do meu colega de tripulação.

Eu comecei a escrever cartas. Cartas para Stela. Nelas jaziam palavras escritas com o ódio de uma caneta azul gasta. Uma delas foi:

  “Querida Stela,

   Por que não me corresponde? Você disse que gostava tanto de mim… Isso me machuca demais. Acho que é melhor me afastar definitivamente de você. Isso não me faz nem nunca me fará bem.

                                        Com amor não correspondido por você,

                                                                            Joshua.”

   Sim, meus caros, eu escrevi cartas me passando pelo homem que roubava minha Stela. Depois disso, ele com certeza teria o que merecia.

Me sentia sempre o melhor de dois demônios ao fazer aquelas coisas. Pior do que eu, só o próprio diabo. Algo dentro de mim me deixava triunfante ao me comparar com aquele ser obscuro.

Depois de receber esta e mais algumas cartas nada amigáveis do falso Joshua, Stela veio procurar apoio em mim. Ela desabafava, comigo, o quanto se sentia chateada por ele ter escrito algo e no outro dia não se lembrar de nada.

Até chegar a fatídica noite. Stela não era de abraçar as pessoas, pelo menos nunca a vi praticar tal ato, mas mesmo assim ela me envolveu em seus braços e deixou um beijo estalado em minha bochecha. Isso comprovou uma porcentagem de sucesso no meu plano.

Isso foi acontecendo com cada vez mais frequência. Ouvia a mais nova desabafar todas as noites. O luar parecia colaborar comigo, refletindo sua imagem iluminada, poética e melancólica nas águas do mar. Mas que era como Stela: intenso, vasto, profundo e agitado.

E ela me beijou num dia ensolarado de verão. Um beijo calmo e terno, como o mar naquele dia. Foi uma sensação indescritível, seus lábios doces em contato com os meus me faziam sentir mais leve que o ar.

Contei a novidade à tripulação, enquanto Joshua parecia mais abatido do que nunca. Pensei que, pelo menos, Stela estaria nos braços do homem certo.

Em um dia de inverno, Joshua conversou comigo, dizendo que Stela sempre ia embora. Como resposta, disse que ela só se prenderia a mim se quisesse.

Na prática não foi bem assim. Caprichava nas belas palavras que derretiam o coração de Stela. Mas, na verdade, apenas tinha achado cartas do verdadeiro Joshua enquanto limpava seu quarto. Anotei tudo no pulso na primeira vez, e passei a levar um bloquinho de papel para anotar tudo e amolecer a moça.

Muito tempo depois, Stela e eu estávamos unidos, mas não oficialmente. Não nos casamos, por escolha dela. Concordava com o que ela propusesse, para não correr o risco de perdê-la para Joshua novamente.

Tudo ia acontecendo, e Joshua parecia cada vez mais abatido. Não comia direito, não fazia a barba, não cortava o cabelo. Parecia um mendigo, maltrapilho e magro. Daria até pena, se isso não fosse para chamar a atenção de Stela.

Não pude negar o alívio que preencheu meu peito quando o homem se jogou na imensidão das águas do mar. Se juntou à sua água amada para se libertar de um amor não correspondido. Eu acalentava Stela, mas não estava nem um pouco triste. Pelo contrário, estava radiante.

Não sei como, mas um marinheiro de nossa tripulação descobriu minha armadilha. Não contou nada a Stela, segundo seu discurso, mas finalizou com um “no inferno você pagará por tudo o que fez.”

Eu apenas lhe lancei um sorriso maroto e voltei para o convés, onde Stela se encontrava admirando as águas. Eu a abracei por trás, enquanto observávamos o mesmo ponto.

 

Turma: 805

Grupo: Manuela, Maria Clara e Luana

Toshi Higashikata

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Eu me lembro como se fosse ontem: a vida tranquila e calma em São Paulo se tornou um melancólico e cinzento passar dos dias, Fujie me deixar me fez mudar para o Japão, tentar uma vida nova, conhecer novas pessoas.

Quando me mudei, na realidade, estava morrendo de medo da adaptação, dos costumes e da cultura, de não ser aceito. Mas o que aconteceu foi exatamente o contrário, logo arranjei emprego, fiz colegas na vinhança e me adaptei rapidamente. Até conheci alguém. Uma pessoa meiga, educada, inteligente, bonita e outros mil elogios que passaria dias descrevendo – seu nome era Misa Amane.

Apesar de sentir algo por ela, eu estava bastante receoso por causa das minhas experiências anteriores e isso sempre me mantinha com o pé no chão.

O tempo foi passando, nossa amizade cresceu e logo começamos a namorar. Estava dando tudo certo entre nós, já estávamos noivos e tivemos nosso filho, Kin. Não era um nome muito popular, mas nós gostávamos. Os anos passaram e nossa vida era perfeita, até aquele dia.

Misa acordou reclamando de fortes dores nas costas e na cabeça. Corri para o hospital, tentei mantê-la calma dizendo que estava tudo bem, que não era nada demais, que voltaríamos para casa e poderíamos viver normalmente.

Misa passou por uma bateria de exames e o resultado esmagou as minhas esperanças, ela sofria de uma doença degenerativa que destruiria seu sistema nervoso, causando paralisia e, no fim, morte cerebral. Infelizmente não tinha cura, nossos sonhos se desmancharam e foram embora com o vento.

Nos meses seguintes, eu não desisti dela, amava-a demais para isso, porém acabei desistindo de mim mesmo. Minha vida não tem sentindo sem Misa, agora eu estou aqui no fundo do poço, Kin está sem a mãe, estou sofrendo tanto que achei a solução; por favor, a quem encontrar essa carta, peço que busque meu filho na escola, meu fim é aqui no meu quarto. Eu, uma cadeira e uma corda.

Assinado: Toshi Higashikata Amane