O outro lado da verdade

Desperate blonde reaching for boyfriend against blackboard

Antenor voltara ao trabalho, já estressado pensando no baile de primavera ao qual teria de ir acompanhando sua namorada. Ele odiava esse tipo de festa, mas Isabella havia lhe implorado tanto que ele acabou cedendo.

Chegaram um pouco atrasados, devido ao pequeno trânsito e à demora de Isabella para se arrumar. Assim que chegaram, a moça foi falar com uns conhecidos, deixando Antenor de lado.

Menos de dois minutos após ser deixado por Isabella, uma garota meio baixa, de cabelos loiros, olhos castanhos e com uma expressão de nervosismo veio falar com ele. Antenor, que nunca levara jeito para socializar e já estava estressadíssimo, fez alguns comentários rudes, que ele esperava que tivessem soado como piadas, apesar de terem um quê de verdade, e se retirou para fumar.

Pouco depois achou Isabella, que já estava cansada de tanto dançar valsa, e a convenceu a ir embora para casa, pois tinha que trabalhar na manhã seguinte.

Na volta do baile, ocorreu a discussão de sempre: “Por que não para de fumar?”, “Você nunca se manterá em um trabalho”, “Espero que esse dê certo”, “E as contas para pagar?”. Esse era o bate-boca diário.

A manhã do dia seguinte foi comum. Transporte cheio, típica manhã da General Osório. Sorte a dele que a loja em que trabalhava ficava em uma rua próxima, mas bem menos movimentada, e até um pouco difícil de achar. Pelo menos era o que todos diziam, e o que Antenor pensava, até que viu a mesma garota da noite anterior, que falara com ele no baile, entrando pela porta. Decidiu fingir que não a conhecia, afinal devia ter vindo para comprar algo. Não, dessa vez, ela havia ido procurá-lo, pelo que aparentava. “Meu Deus! Tanto trabalho só para ver minha pessoa? Acho que não”, era o que pensava Antenor, mas a menina parecia se esforçar para demonstrar o contrário. “Agradeço a visita, qualquer hora dessas dou uma ligada”, mas não ligou. Não que precisasse, já que a menina ligava para o trabalho de Antenor e desligava após ouvir o “Alô?” quase todo dia, umas três vezes.

Antenor chegava a casa já irritado, ainda tendo que lidar com os ciúmes de Isabella por essa garota que nenhum dos dois sabia ao certo quem era. Chamava se Aline, ou Amanda, alguma coisa com A e trabalhava ali no salão mesmo.

Mais ligações nos dias que se seguiram, Antenor já gritava ao telefone, independentemente de quem fosse do outro lado da linha. Recebeu mais uma, duas, cinco ligações e, pelo que aparentava, também havia um amigo da garota envolvido. “Estou comprometido, se um dia me der na telha, EU MESMO TELEFONO!”, gritou pela última vez. Depois de tanto transtorno e gritaria, ao ser chamado pelo chefe, não precisou nem adivinhar quem era. “Eu mesmo me retiro”, respondeu com voz baixa, assim que entrou. Orgulhoso como era, preferia se retirar a ser retirado. Chegando a casa, a briga foi feia. Isabella, com sua cabeça quente e temperamento explosivo, chegou a quebrar alguns copos. Chamaram a polícia. “Nada de mais, senhor policial”, dizia Isabella, um pouco envergonhada. Depois disso, sem gritaria. Uma ignorada aqui, uma troca de olhares de raiva e tristeza ali, um beijo rápido e frio e um boa noite seco. Afinal, não é bom dormirem brigados.

Já se passavam dias, após o episódio do telefone, sem mais ligações. Mas vinham diversas cartas. Todas falando quase a mesma coisa. “Esse relacionamento não lhe faz bem”, “Pode arranjar coisa melhor, como eu”, “Eu te amo mais que tudo” e alguns versos bonitos de uma música, poema ou livro.

Mais algumas cartas, mais alguns presentinhos, mais alguns dias. Num belo fim de tarde chuvoso, lá estava a menina. Toda encharcada, parecendo um cão que caiu do caminhão, esperando Antenor sair do serviço novo.

Antenor, que não pôde deixar de sentir pena, abrigou a garota embaixo de seu guarda-chuva surrado, levou-a para o ponto e a colocou dentro do ônibus.

A menina estava ficando desesperada. A fofoca na vizinhança se espalhava rapidamente. Foi até procurar Alzira, a velha do bairro que mexia com magia negra, pelo menos era o que diziam. E para isso Antenor respondia: “não poderia me importar menos”, afinal, dali a alguns meses  se casaria com sua amada.

Fora os transtornos e fofocas que a garota trazia para sua vida, estava tudo muito bem para Antenor. Casamento marcado para muito breve. Ansioso. Nervoso. O trabalho pelo menos estava fixo até agora. As contas, pagas. E olhe só, não fumava há quase um mês.

Finalmente se casou. Feliz da vida, os anos foram passando. Lugares diferentes, empregos diferentes, nada que atrapalhasse o amor do casal. As contas continuavam pagas, houve recaídas, mas já era o segundo semestre sem um cigarro na boca. Mais alguns meses, e veja! São gêmeos! Ainda recebia cartas de vez em quando, a menina se casou com Gilvan, grande amigo, “baita salvação que ele foi”. “Deve ter criado um apego por mim”, pensava Antenor, ao receber as cartas da menina que falavam sobre a vida dela, e como ela havia seguido em frente, recebia um pedido de desculpas em todas elas. No entanto, mal sabia ele que ela estaria a esperá-lo na estação no próximo domingo.

 

 

 

 

 

Música: https://www.vagalume.com.br/coldplay/shiver-traducao.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Traição de Fujie

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Não acredito que estava fazendo aquilo.

Já era outro dia, voltara a casa de madrugada, com minha cabeça quase explodindo e perdido em pensamentos. Rotina lenta, cansada como minha mente. A única coisa que pensava era contar tudo, apanhar até não poder mais, ou simplesmente que Fujie desaparecesse do nada, que tudo aquilo não tivesse acontecido.

No judô, era aparente meu cansaço: movimentos lentos e previsíveis, yukos, basaris. Até que Toshi percebe e pergunta:

-O que houve? Parece que você ficou acordado por dias! Aconteceu algo?

Minha vontade era de contar tudo, ali mesmo, acabar com tudo. Que nada.

-Estou bem, só não consegui dormir mesmo. Vamos continuar.

Já era tarde. Voltei a casa passando pelo Teikam, Fujie me olha com um olhar safado. Não conseguia esquecer. Tentei dormir, e nada.

Assim se repetia pelos próximos sete dias: acordava, trabalhava, Judô, Fujie, dormia mal. Já não aguentava mais, minha vida estava em lástimas. Resolvi contar.

Reuni-me com Toshi depois do judô. Desabafei tudo, chorando, implorando por ser agredido, por ser esquecido, ou qualquer coisa pior que isto.

Toshi não expressava reação, parecia pálido, um fantasma. Em instantes, chamou Fujie, pedindo explicações sobre tudo que ouviu. Essa foi minha surpresa.

-Não acredito que você fez isso com meu amigo! Tentando-o contra mim desse jeito, sua maldita!

Não acreditava que estava ouvindo aquilo, os dois começaram a discutir e Fujie foi expulsa de casa. Toshitaro se virou, e, com toda frieza, disse:

-Não posso te culpar pelo que aconteceu, temos nossos impulsos e, às vezes, não conseguimos nos controlar. E mais, uma amizade verdadeira é mais valiosa que um amor!

Estava aliviado, em paz, aquilo realmente me fez bem.

Meses depois conheci uma mulher, acabou de entrar no Judô, estamos juntos até o momento. Carla é realmente especial, assim como a amizade de Toshitaro.

 

 

ADEUS

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Ao chegar na rodoviária, a Pomba Enamorada se encosta numa mesa e começa a procurar pelo seu “verdadeiro amor”. Depois de 2 horas de espera, eis que ela vê um homem com um sobretudo marrom e chapéu cinza descendo de um ônibus amarelo, como a moça havia previsto. Ela olhou para ele e quando seus olhares se encontraram, ficaram se encarando por alguns segundos, sem reação alguma. Então Antenor tomou uma atitude: foi em direção a ela. Ela ficou nervosa, com o coração acelerado. Todas as lembranças de Antenor vieram à tona e, logo após isso, ela o escuta chamando por seu nome.

Depois de dez minutos de conversa numa lanchonete próxima dali, ela se esqueceu do nervosismo, do passado, até do marido. Ela só sorria. Depois de horas de uma conversa prazerosa, ele tinha que ir embora. Estava chovendo. Antenor percebeu que não podia deixar aquela dama lá. Ele a chamou para um motel, ela aceitou.

Ao chegar nos seus aposentos, conversaram, beberam um pouco e tiveram uma longa noite de amor.

Quando Antenor acordou, viu que ela não estava mais lá e em seu lugar, havia um papel escrito “adeus”. Ela voltou para casa, viu seus filhos chegando do trabalho e passou o dia com eles, enquanto seu marido trabalhava. Um pouco antes de Gilvan chegar, escreveu uma carta, se despediu de seus filhos e foi embora. Quando seu marido chegou, encontrou um papel em cima do sofá que dizia: “adeus”. E no final de tudo, percebeu que a liberdade era seu verdadeiro amor.

 

Turma: 805

Grupo: Lucas, Ryan e Ruan

A Parada da Ilusão

romance

Sete anos depois de Alda e Geraldo terem se separado, Geraldo já tinha se tornado médico e também estava noivo de uma jovem e linda mulher de nome Laura, que tinha (junto ao pai) uma loja de iscas de peixe na orla da praia.

Alda tinha viajado muito, foi para Europa e América do Norte. No Canadá ela encontrou um homem chamado  Peter Johnson, um pintor muito rico e conhecido por suas belas obras de arte.

Alda tinha o sonho de se casar na sua terra natal, lá no sul do Brasil, lugar muito longe de onde eles estavam morando, porém, Peter a amava muito e realizou seu sonho, ele pagou a viagem e deu a ela, de noivado, o anel mais caro que ele podia comprar. E então eles foram para o Brasil.

Enquanto isso, Geraldo recebeu uma ótima oferta de emprego de um hospital em Santa Catarina e logo aceitou, sem pensar duas vezes. Laura, porém, não estava muito contente com a ideia, porque toda sua família morava perto do casal e ela não queria deixar toda família. Geraldo, entretanto, disse:

– Querida, eu achei um ótimo local para nos casarmos em Santa Catarina, eu pagarei a viagem e a estadia de seus pais e seus irmãos!

Depois disso Laura aceitou e todos foram.

Uma semana antes de Alda e Peter se casarem eles fizeram algumas viagens pelo Sul do Brasil, foram a Florianópolis e Santa Catarina. Geraldo marcou uma viagem pois Laura sempre quis esquiar, porém quando eles estavam embarcando no avião Geraldo teve uma surpresa: Alda tinha pegado o mesmo avião. Alda não hesitou e disse bem alto:

– Geraldo, quanto tempo! Você não mudou nada.

Laura logo perguntou:

– Quem é essa?

Geraldo ficou quieto e olhou para Alda como se tivesse visto um anjo ou um demônio, e quando ia responder, Peter se levantou do acento, deu um beijo em Alda e perguntou:

– Quem são?

Alda respondeu:

– Apenas um velho amigo.

E os dois seguiram seus caminhos.

Quando eles chegaram em Floripa, Peter convidou Laura e Geraldo para os acompanhar até um ótimo restaurante. Lá Geraldo continuou quieto e Ada perguntou:

– Laura, você e Geraldo vão se casar?

– Sim, vamos nos casar semana que vem.

– Que coincidência, nós também.

Então Geraldo foi ao banheiro e logo atrás veio Alda, que sussurrou em seu ouvido:

– Vamos fugir!

Geraldo olhou para ela e disse:

– Não vou viver uma mentira de novo!

– Geraldo, aquilo não foi uma mentira para mim, aquilo só abriu meus olhos para a verdade, a verdade é que eu te amo e se não ficarmos juntos, aí é que estaremos vivendo uma mentira!

Então Alda e Geraldo fugiram para o Ceará, lá tiveram cinco filhos e morreram juntos.

A Traição de Fujie

Ainda me lembro de quando meu pai me deu a notícia de que iríamos nos mudar do Japão para o Brasil, diferença de 24 horas, uma cultura totalmente diferente da que estava acostumado, novo idioma. Era apenas um garoto de cinco anos e estava apavorado com tudo aquilo, mesmo com meu pai dizendo que iríamos ficar numa colônia japonesa no Brasil e que eu iria conseguir me enturmar.

Acostumar-se com uma cultura totalmente diferente da sua é uma missão difícil. Nos dois primeiros anos eu estudei numa escola japonesa enquanto fazia curso de português. Até aí estava tudo bem, mas quando eu fui para a escola brasileira, tudo desandou, comecei a ser zoado por ser japonês.

Meu pai começou a perceber a diferença na minha personalidade e resolveu me pôr numa escola de judô, pois, segundo ele, eu tinha que “me reencontrar com minhas origens”. No judô tínhamos muitas competições, e foi numa dessas competições, anos mais tarde, que conheci Rafael, de quem fiquei muito próximo.

Levei-o para conhecer as coisas do Japão, beber saquê nos restaurantes da Liberdade, mostrei-lhe o cinema, e sempre o ajudava no judô, já que eu estava num nível mais avançado do que ele.

Os anos foram se passando e a nossa amizade aumentando, a ponto de até mesmo meu pai arrumar um emprego no seu estúdio de fotografias para Rafael. Foi nessa época que encontrei a mulher mais bela do mundo, pela qual me apaixonei.

Seu nome era Fujie. Desde que a encontrei, fiz de tudo para conquistá-la, o que, depois de um tempo, funcionou.

Nos casamos no verão passado, nossa lua de mel foi numa estação de águas, onde passamos três semanas – as três semanas mais felizes da minha vida.

Depois de um mês de casados, Fujie parecia diferente, estava mais distante. Pensava que o problema era comigo, que não a fazia feliz. Tentava falar com Rafael, mas o mesmo também parecia estranho, parecia estar escondendo alguma coisa.

E foi em uma noite chuvosa que descobri o motivo de tanta estranheza, algo que eu nunca queria ter visto: Surpreendi Fujie e meu melhor amigo Rafael me traindo.

Senti-me com o coração vazio, lágrimas escorriam pelos meus olhos; se não tivesse visto, não acreditaria.

Não aguentando a traição, me divorciei de Fujie e cortei qualquer tipo de relação com Rafael, mesmo ele tentando se explicar. Mudei-me de volta para o Japão, onde abri uma academia de Judô e me casei novamente com Hatsune, com quem tive dois filhos, Kaneki e Jooheon.

Dessa vez, sem traição.